Mário Brandão, presidente da ABCID, fala porque na periferia são as lans que garantem o acesso à internet
Mário Brandão é administrador de empresa e mestre em Tecnologias da Internet pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalhou como consultor para empresas até que, em 2002, criou seu próprio negócio. Juridicamente, abriu uma locadora de computadores. Na prática, ele inaugurou uma lan house na Abolição, Zona Norte do Rio. Teve de aderir, mesmo sem querer, à lógica do “mais ou menos regularizado”, situação que até hoje lhe dá dor de cabeça. Paga imposto, emite nota fiscal, mas não tem alvará para vender acessos à Internet e jogos eletrônicos.
Sua situação, ainda assim, não é das piores. Mais de 80% dos donos de lan house vivem na completa informalidade. Segundo a Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital, ABCID, das 90 mil lan houses existentes no Brasil, somente 13% têm algum tipo de registro.
Em entrevista ao “Conexão Cultura”, o presidente da ABCID, Mario Brandão falou sobre as lan houses que se consolidaram como oportunidade de negócios, ponto de encontro, entretenimento e local de articulação social. Esses verdadeiros centros de relacionamento são responsáveis por levar até as periferias e regiões afastadas do País o que nenhuma política pública conseguiu em larga escala: a inclusão digital.
Lan house: que negócio é esse?
O termo lan house, em sua origem, não remete a nada relacionado a jogo, como muitos pensam. Lan é a junção das iniciais da expressão em inglês de Local Area Network, ou seja, local de área de trabalho em rede. Mas, de acordo com a legislação brasileira, lan house é o mesmo que “casa de jogo”, pois é assim que consta na tabela de Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAD) do IBGE. Se um empreendedor monta seu negócio como manda o figurino, já começa a sofrer uma série de restrições. Um exemplo: em casa de jogos, menores só entram com autorização dos pais.
“A lan house é muito mais do que isso. É tudo o que a internet é: local de compra, de aprendizado, de relacionamento, de entretenimento que também oferece jogos”, diz o presidente da ABCID.
“Esse é um dos motivos que levam as lans para a ilegalidade. Mesmo as que tem CNPJ, estão cadastradas com outras finalidades como lanchonete, loja de conveniência, curso de informática, locação de computadores, casa de artesanato, e por aí vai”.
Do fliperama à educação a distância
As lan houses surgiram em 1998, ocupando o lugar deixado pelos fliperamas, atividade extremamente reprimida, que praticamente acabou. Entre 2002 e 2003, houve um processo de expansão e de consolidação das lans como empreendimento rentável. Profissionais com o sonho de ter ser próprio negócio, já habituados a lidar com tecnologia, apostaram seus investimentos na aberturas do negócio.
Brandão conta que nesses dois anos cresceu o serviço de acesso à internet, que chegou a empatar com os jogos. Já em 2006 a situação se inverteu: os games ficaram com 25% do total de serviços oferecidos, enquanto o acesso à internet chegou a 75%. Fundamentalmente Orkut e MSN foram as ferramentas mais utilizadas. No ano seguinte, a proporção de uso do computador se repetiu.
Também houve uma saturação do modelo de negócio baseado na venda de horas. “Uma lan com 10 computadores, custando R$ 1,00 a hora, que funciona 15 horas por dia, arrecada R$ 150,00. Ao fim do mês, a casa tem uma receita máxima de R$ 4.500,00. Mas na prática, a ocupação média é de 55%, o que dá cerca de R$ 3.000,00”, calcula Mário Brandão. A partir daí, começaram a surgir alternativas para melhorar a receita e as lans assumiram também o papel de locais de serviço como recarga de cartucho, manutenção de máquinas, serviço e-Gov, e-commerce, educação a distância, colocação de currículo em sites de trabalho, por exemplo.
Percebeu-se também uma demanda muito grande para compras fora do horário comercial. Atendendo à demanda, muitas lans ficam abertas até meia-noite e passando a atender às necessidades das pessoas que trabalham até tarde e não podem contar com o comércio regular. “Vendem de tudo: de pilha a barbeador, até ursinho de pelúcia”, acrescenta. “Esta onda de serviços agora está crescendo e é o modelo que a gente acredita que vá predominar nesse biênio de 2009/2010. De forma geral, o perfil de negócios com que a lan house surgiu já não existe mais, apesar de usarmos esse mesmo nome para todos os casos”, diz Mário Brandão.
Inclusão digital involuntária
Hoje 49% dos acessos à internet, de acordo com dados divulgados pela ABCID, são feitos a partir das lan houses. Os pontos de acesso gratuito mantidos pelo poder público – telecentros, Casa Brasil, Pontos de Cultura, Acessa São Paulo, etc – respondem por 6% do total. Além de um bom negócio, as lans são também pontos de inclusão digital. Ação que, acredita Brandão, acontece como uma consequência e de forma involuntária. Os proprietários de lan house não têm como intenção primeira a transformação da comunidade ou dos usuários. Mesmo assim, segundo o presidente da ABCID, as lans já se consolidaram como ponto de encontro, onde as pessoas realizam até festa de aniversário: “O interesse do proprietário é tornar a lan house atrativa. Quando alguém que nunca teve algum tipo de contato com a internet chega à lan house, seu proprietário cria promoções para que o novo usuário tenha seu e-mail, seu MSN, faça sua página no Orkut e se ambiente nesses espaços”.
O propósito do dono de lan house é ter sucesso no seu negócio. É criar um cliente que vá consumir seus serviços. Para Mário Brandão, com “o acesso à internet, as pessoas passam a ler mais, melhoram seu vocabulário e até se interessam pelo aprendizado do inglês. Mas não é a lan house em si que transforma essa pessoa, mas sim, o acesso à rede. O mérito da lan house é levar esse instrumento de transformação até a periferia, onde o poder público não chega. Em lugares como favelas, zonas urbanas distantes, cidades do Nordeste e da Região Norte, 70% do público acessa a internet a partir da lans”. Enfim, mesmo que a intenção seja de sucesso num bom negócio, a criação de lan houses tem como consequência natural a introdução de milhões de brasileiros a um mundo de tecnologia e informação. É a inclusão digital, vital para o exercício da cidadania.







