September, 2009

Lan house não é casa de jogo, é de inclusão digital

_cut44793

Mário Brandão, presidente da ABCID, fala porque na periferia são as lans que garantem o acesso à internet

Mário Brandão é administrador de empresa e mestre em Tecnologias da Internet pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalhou como consultor para empresas até que, em 2002, criou seu próprio negócio. Juridicamente, abriu uma locadora de computadores. Na prática, ele inaugurou uma lan house na Abolição, Zona Norte do Rio. Teve de aderir, mesmo sem querer, à lógica do “mais ou menos regularizado”, situação que até hoje lhe dá dor de cabeça. Paga imposto, emite nota fiscal, mas não tem alvará para vender acessos à Internet e jogos eletrônicos.

Sua situação, ainda assim, não é das piores. Mais de 80% dos donos de lan house vivem na completa informalidade. Segundo a Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital, ABCID, das 90 mil lan houses existentes no Brasil, somente 13% têm algum tipo de registro.

Em entrevista ao “Conexão Cultura”, o presidente da ABCID, Mario Brandão falou sobre as lan houses que se consolidaram como oportunidade de negócios, ponto de encontro, entretenimento e local de articulação social. Esses verdadeiros centros de relacionamento são responsáveis por levar até as periferias e regiões afastadas do País o que nenhuma política pública conseguiu em larga escala: a inclusão digital.

Lan house: que negócio é esse?

O termo lan house, em sua origem, não remete a nada relacionado a jogo, como muitos pensam. Lan é a junção das iniciais da expressão em inglês de Local Area Network, ou seja, local de área de trabalho em rede. Mas, de acordo com a legislação brasileira, lan house é o mesmo que “casa de jogo”, pois é assim que consta na tabela de Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAD) do IBGE. Se um empreendedor monta seu negócio como manda o figurino, já começa a sofrer uma série de restrições. Um exemplo: em casa de jogos, menores só entram com autorização dos pais.

“A lan house é muito mais do que isso. É tudo o que a internet é: local de compra, de aprendizado, de relacionamento, de entretenimento que também oferece jogos”, diz o presidente da ABCID.

“Esse é um dos motivos que levam as lans para a ilegalidade. Mesmo as que tem CNPJ, estão cadastradas com outras finalidades como lanchonete, loja de conveniência, curso de informática, locação de computadores, casa de artesanato, e por aí vai”.

Do fliperama à educação a distância

As lan houses surgiram em 1998, ocupando o lugar deixado pelos fliperamas, atividade extremamente reprimida, que praticamente acabou. Entre 2002 e 2003, houve um processo de expansão e de consolidação das lans como empreendimento rentável. Profissionais com o sonho de ter ser próprio negócio, já habituados a lidar com tecnologia, apostaram seus investimentos na aberturas do negócio.

Brandão conta que nesses dois anos cresceu o serviço de acesso à internet, que chegou a empatar com os jogos. Já em 2006 a situação se inverteu: os games ficaram com 25% do total de serviços oferecidos, enquanto o acesso à internet chegou a 75%. Fundamentalmente Orkut e MSN foram as ferramentas mais utilizadas. No ano seguinte, a proporção de uso do computador se repetiu.

Também houve uma saturação do modelo de negócio baseado na venda de horas. “Uma lan com 10 computadores, custando R$ 1,00 a hora, que funciona 15 horas por dia, arrecada R$ 150,00. Ao fim do mês, a casa tem uma receita máxima de R$ 4.500,00. Mas na prática, a ocupação média é de 55%, o que dá cerca de R$ 3.000,00”, calcula Mário Brandão. A partir daí, começaram a surgir alternativas para melhorar a receita e as lans assumiram também o papel de locais de serviço como recarga de cartucho, manutenção de máquinas, serviço e-Gov, e-commerce, educação a distância, colocação de currículo em sites de trabalho, por exemplo.

Percebeu-se também uma demanda muito grande para compras fora do horário comercial. Atendendo à demanda, muitas lans ficam abertas até meia-noite e passando a atender às necessidades das pessoas que trabalham até tarde e não podem contar com o comércio regular. “Vendem de tudo: de pilha a barbeador, até ursinho de pelúcia”, acrescenta. “Esta onda de serviços agora está crescendo e é o modelo que a gente acredita que vá predominar nesse biênio de 2009/2010. De forma geral, o perfil de negócios com que a lan house surgiu já não existe mais, apesar de usarmos esse mesmo nome para todos os casos”, diz Mário Brandão.


Inclusão digital involuntária

Hoje 49% dos acessos à internet, de acordo com dados divulgados pela ABCID, são feitos a partir das lan houses. Os pontos de acesso gratuito mantidos pelo poder público – telecentros, Casa Brasil, Pontos de Cultura, Acessa São Paulo, etc – respondem por 6% do total. Além de um bom negócio, as lans são também pontos de inclusão digital. Ação que, acredita Brandão, acontece como uma consequência e de forma involuntária. Os proprietários de lan house não têm como intenção primeira a transformação da comunidade ou dos usuários. Mesmo assim, segundo o presidente da ABCID, as lans já se consolidaram como ponto de encontro, onde as pessoas realizam até festa de aniversário: “O interesse do proprietário é tornar a lan house atrativa. Quando alguém que nunca teve algum tipo de contato com a internet chega à lan house, seu proprietário cria promoções para que o novo usuário tenha seu e-mail, seu MSN, faça sua página no Orkut e se ambiente nesses espaços”.

O propósito do dono de lan house é ter sucesso no seu negócio. É criar um cliente que vá consumir seus serviços. Para Mário Brandão, com “o acesso à internet, as pessoas passam a ler mais, melhoram seu vocabulário e até se interessam pelo aprendizado do inglês. Mas não é a lan house em si que transforma essa pessoa, mas sim, o acesso à rede. O mérito da lan house é levar esse instrumento de transformação até a periferia, onde o poder público não chega. Em lugares como favelas, zonas urbanas distantes, cidades do Nordeste e da Região Norte, 70% do público acessa a internet a partir da lans”. Enfim, mesmo que a intenção seja de sucesso num bom negócio, a criação de lan houses tem como consequência natural a introdução de milhões de brasileiros a um mundo de tecnologia e informação. É a inclusão digital, vital para o exercício da cidadania.

A esfera pública agora é digital

Diversidade e democracia na era digital implicam em um espaço público na rede

- por Oona Castro

Hoje é difícil imaginar a vida sem Internet, mas não faz nem duas décadas que o mundo ouve falar dela. Constatação que leva inevitavelmente à pergunta: por que, então, a Internet parece tão necessária? Por que se diz que a inclusão digital é tão importante?

Entrar na era digital, equivale a dizer, entre outras coisas, que a informação tornou-se o bem de maior valor. Na perspectiva do mercado, enquanto fábricas se instalam em países em desenvolvimento para produzir, as matrizes, escritórios de design, planejamento e pesquisa permanecem nos países desenvolvidos. Lá, criam e registram as inovações. Pode-se produzir em qualquer lugar do mundo, mas royalties são enviados para os países onde as idéias foram concebidas.

Nesse contexto, a indústria de mídia e entretenimento é uma das primeiras em faturamento hoje. A previsão da PricewaterhouseCoopers, auditora e consultora de algumas das principais empresas do ramo, prevê que o faturamento dessa indústria chegue a 2,2 trilhões de dólares em 2012.

Dentre os fatores importantes para se alcançar essa nada modesta cifra estão a expansão da Internet (e da banda larga), o setor de jogos eletrônicos e a publicidade nas mídias digitais. Embora continue abocanhando ainda a maior porção do faturamento global de mídia e entretenimento, a televisão vem assistindo à redução de sua fatia nessa indústria. Sua importância na esfera pública midiática ainda é crucial, mas é nítido que está em decadência a sua centralidade na comunicação social.

Na perspectiva social, acesso à informação e direito à comunicação são pilares fundamentais para a participação em sociedades democráticas, por meio do fortalecimento de mecanismos públicos de tomadas de decisão. Aqui, destaca-se também o papel que a cultura exerce sobre a constituição do pensamento da humanidade, criação e fortalecimento de referências e identidades.

Neste sentido, embora a televisão seja o meio de comunicação mais disseminado nos domicílios brasileiros e estrangeiros, ele hoje não é um canal para a produção de conteúdo feita pelo público que, com a Internet, sai de seu lugar de mero espectador para tornar-se também gerador de informação e cultura.

A Internet propicia a desintermediação das relações e possibilita o acesso direto às fontes produtoras de conteúdo – seja cultural, econômico, político, social e até mesmo de mercado. Ela é um espaço também para a distribuição de informação e cultura, produzida em toda parte e por qualquer pessoa que a ela tem acesso. E é aí que entra o famoso jargão inclusão digital. Ele poderia ser completamente vazio de significado não representasse o caminho mais consistente em direção ao direito à comunicação e à diversidade cultural.

Enquanto a televisão levou mais de 50 anos para estar em praticamente todos os domicílios brasileiros, em menos de 15 anos 17% dos domicílios têm acessso à Internet (na classe A, esse índice sobe para 82% contra 2% nas classes D e E). São porcentagens ainda tímidas, mas com uma curva de crescimento considerável. Além disso, lan houses, telecentros e outros espaços de acesso público garantem a participação na rede a uma fatia muito maior da população.

Boa parte dessa inclusão se dá pelo lazer, que não é apenas um caminho para se fazer outros usos da Internet. Pesquisas têm demonstrado a importância dos jogos de estratégia para o desenvolvimento de lógica, raciocínio matemático e para a concentração em sala de aula.

Tudo isso para dizer que a inclusão digital hoje é o principal caminho – o mais viável e o mais importante – para a ampliação das oportunidades de produção de e acesso a informação, para a livre expressão, para a diversidade cultural e de pensamento, para o exercício da cidadania. Trata-se de um meio de privilegiar a postura ativa, a ação, a criação, a inovação, o intercâmbio, a pluralidade de vozes e opiniões e a livre circulação de idéias.

 

Conexão Cultura: uma ponte para o conteúdo de qualidade

De norte a sul do país, nas grandes metrópoles ou nas pequenas cidades, no centro ou nas periferias, há cada vez mais brasileiros conectados. Muitos deles tiveram seu primeiro contato com a internet a partir do computador do trabalho, do vizinho, do parente, do telecentro ou da lan house – esta última é a responsável pelo trabalho de formiguinha que abre as portas do mundo digital para milhões de cidadãos.

As estatísticas sobre as lan houses são controversas. Não se sabe ao certo quantas são, onde se situam ou como funcionam e são gerenciadas, mas uma pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet (CGI) entre mais de 17 mil brasileiros aponta os chamados centros públicos de acesso pago como o local mais utilizado para navegar pela web. Lan houses, cyber cafés e outros estabelecimentos do gênero é que asseguraram um mínimo de inclusão digital para a grande massa: 49% dos entrevistados.

O percentual é ainda maior quanto mais próximos da base da pirâmide estejam os usuários já que as lan houses são o local utilizado por 78% entre os que recebem até 380 reais, 67% entre 381 e 760 reais e 55% na faixa que vai de 761 a 1140 reais.

Num trabalho inédito, a Cultura Data – o braço de pesquisa da Fundação Padre Anchieta – investigou hábitos, preferências e objetivos desses brasileiros. Resumo da ópera:

  • Mesmo quem tem computador em casa, usa este serviço frequentemente quando está na rua;
  • Os videogames estão perdendo espaço – praticamente a mesma proporção (42% × 40%) já acessa portais de cultura, notícia e entretenimento;
  • Quarenta por cento estão em busca de informações e serviços on line;
  • Um em cada três internautas quer treinamento e pesquisas educacionais.

Ou seja, mesmo esses marinheiros de primeira viagem já se deram conta das possibilidades que a cultura digital oferece. Porém,  ainda sofrem para encontrar o caminho das pedras, capaz de levá-los instantaneamente até as páginas e sites de instituições que oferecem conteúdo relevante, gratuito e culturalmente significativo para todos.

Para ultrapassar o abismo formado entre a sede por conhecimento e o acesso a este é que surge o Conexão Cultura – uma das mais novas iniciativas da Fundação Padre Anchieta (FPA), que há 40 anos se empenha na missão de contribuir para a formação crítica do homem e o exercício da cidadania nas mídias. Até a pouco, o campo de atuação da FPA estava fundamentalmente no rádio e na televisão. Agora, a democrática e sedutora internet amplia o cenário.

O Conexão Cultura funciona por meio de um sidebar do navegador de internet. Esta ferramenta, oferece ao usuário um menu de conteúdos relevantes e qualificados. O intuito é responder ao principal anseio dos que se conectam a rede em centros de acesso, sejam eles públicos ou privados: “Eu quero aprender mais!”.

O projeto articula a veiculação de conteúdos de parceiros com iniciativas que visem o crescimento profissional e a formação cultural. Constitui-se, então, o passaporte para a construção de uma comunidade habitada por internautas, provedores e investidores movidos pelo desejo do conhecimento e da transformação social.