September, 2009

O desafio das lan houses

Do antro da perdição à cidadania digital, passando pelos delírios do consumo
- por Claudio Prado

O fenômeno das lan houses é potencialmente a quarta geração desta onda de Inclusão Digital, expressão, aliás, que já não faz sentido em 2009. Devemos falar em Cultura Digital.

Estamos na 3ª geração deste movimento. A 1ª onda foi “informática para os excluídos – senão você não vai ser ninguém na vida”. A 2ª onda foram os Telecentros da cidade de São Paulo, onde já não se falava de informática, mas sim de Internet com Banda Larga e Software Livre.

Os Telecentros abriram as portas do ciber espaço livre à milhares de pessoas das periferias… Cunharam uma geração de entusiasmo coletivo impressionante. Ali começou a ficar claro a vocação do brasileiro para a cultura colaborativa da Internet. Ali começou a ficar claro que em torno de um monte de computadores conectados, explodia um mundo de criatividade e as pessoas começavam a produzir e não somente a consumir. Nascia a 3ª geração, a Cultura Digital, que deriva da compreensão de que para o uso pleno das possibilidades interativas da Internet, é necessário existir um espaço multimídia e não só computadores. Descobrimos que o cidadão conectado deve ser capaz de se expressar não só através de textos e hipertextos, mas também através de imagem, áudio (música, sons, textos orais) e vídeo. Hoje, a conexão deixou de ser o maior desafio para dar lugar à expressão digital multimídia como demanda intrínseca da cidadania do século 21. A Cultura Digital dos Pontos de Cultura trabalha nesta perspectiva, gerando autonomia tecnológica e capacitação em multimídia livre como elementos essenciais às transformações das realidades locais e da liberação das energias criativas de indivíduos e coletivos sociais.

Por mil razões, o Telecentro como tal não faz mais sentido. É nas lan houses que acontecem a convivência e socialização digital da população brasileira. Cabe aqui um alerta vermelho! Há três movimentos distintos em direção ao “futuro” das lan houses:

  1. Um movimento reacionário que vê as lans como “antro da perdição”, numa confusão histórica de rejeição do novo.
  2. O movimento de legalizar as lan houses para explorar o comércio da conexão.
  3. O movimento que vê nas lan houses espaços potenciais de formaçãode cidadania cultural do século 21.

Estas três instâncias terão que ser levadas em consideração pelos órgãos regulatórios do governo, todas elas importantes para o bem e/ou para o mal. O grupo 1 é um perigo. Reacionários de todas as estirpes que vêem na Internet a encarnação de todos os males. Clássica reação ao novo. O grupo 2 são os neo-empresários da conexão, potenciais criadores de franquias e impérios que lidam com o digital como se o século 21 fosse uma continuação do analógico século 20, sem se questionar, me parece, que estão em curso, no Brasil e no mundo, inexoráveis políticas públicas de Banda Larga. E o grupo 3, no qual me incluo, enxerga um horizonte onde a Cultura Digital nas lan houses pode ser um atalho para criação de bolsões de alegria e de perspectivas de oxigênio para todos. As lan houses Culturais podem vir a ser os campinhos de várzea da Cultura e assim sendo se tornar a quarta geração de uma cultura digital revolucionária.

Todos na rede não importa onde

Com a Internet, a produção, publicação e compartilhamento de conteúdo estão mais democratizados

São quatro metros quadrados. As paredes, de compensado, estão rabiscadas. O chão tem lajotas esburacadas e a fiação elétrica fica toda pendurada no teto sem reboco. É ali que Amanda se concentra na frente de um monitor. É ali que ela vê a vida de sonhos que constrói com outros 500 mil usuários do Orkut, autores de personagens e situações idealizadas nas comunidades do site. À sua frente, Rafael dos Santos divide o espaço com Amanda. Ele conversa com o primo que mora em Pernambuco. Os dois são grandes amigos mesmo tendo se visto pessoalmente apenas uma vez. Eles raramente se falam ao telefone. Na mesma rua, poucos passos acima, Phelipe de Macedo procura no Orkut informações que possam ajudá-lo a melhorar seu desempenho profissional.

Os três são moradores da favela do Real Parque, comunidade de São Paulo que abriga cinco mil pessoas. Eles estão entre os 93% de usuários de lan houses paulistanas que usam a Internet para trocar mensagens e entre os 62% que têm como principal atividade na rede a comunicação. Na lan houses de São Paulo, seja na distante periferia ou na movimentada Avenida Paulista, pipocam nos monitores as páginas roxinhas do Orkut e as janelas piscantes do comunicador instantâneo MSN. Este cenário, comprovado nos levantamentos feitos por institutos de pesquisa, como Ibope e Cultura Data, mostra que a Internet é agora um veículo de comunicação dialogada.

Tudo consequência de uma grande mudança que a rede sofreu nos últimos anos. Com a popularização de sites e ferramentas que facilitam a troca de mensagens, a rede se transformou em um meio de interação, conexão e um multiplicador de relação entre as pessoas. Quem pesquisa o assunto com profundidade não tem dúvida: essa característica da Internet já provoca mudanças na sociedade.

“A Internet trouxe uma capacidade de disseminação e articulação sem precedentes”, aponta Juliano Spyer, autor do livro Conectado – O que a Internet fez com você e o que você pode fazer com ela. Entre essas mudanças, Spyer e Beth Saad, pesquisador e professora da Universidade de São Paulo, destacam o fim da escassez de informação; a facilidade de se produzir, publicar e compartilhar conteúdo na rede; a possibilidade de fazer e propagar conteúdos que não entrariam na pauta jornalística; a construção coletiva de conhecimento em sites como a enciclopédia colaborativa Wikipédia e em repositórios de vídeos e fotografias; e o fortalecimento de vínculos entre pessoas que partilham realidades ou interesses comuns.

Do real ao virtual

Sem jamais ter parado para pensar no que dizem os especialistas, Rafael dos Santos, 18 anos, explora até onde pode o potencial da Internet. Já faz dois anos que ele, todo dia, fica duas horas na lan house. Rafael se tornou grande amigo do primo de Pernambuco por causa da Internet. E foi também por causa da Internet que soube da intenção da Prefeitura em desocupar a favela onde mora para dar lugar à construção de prédios. No mesmo dia, avisou o pai que por sua vez mobilizou os moradores para discutir as providências que poderiam ser tomadas.

Para Phelipe de Macedo, 19 anos, a Internet o ajudou a tomar decisões importantes no campo profissional. Hoje ele é soldado de carreira do Exército. Na época em que prestava o serviço militar obrigatório, Phelipe se correspondia com colegas de outros estados pela Internet. Nessa troca de informações, ficou sabendo que o trabalho no Exército não se limitava a exercícios militares.Os soldados também faziam trabalho para a sociedade como, por exemplo, construções de estradas e reformas de escolas. Isso o entusiasmou a seguir a carreira militar.Ainda pela Internet, Phelipe aprendeu técnicas de escolta de autoridades e conseguiu dicas para se sair bem em testes de resistência. Informações determinantes para que, logo depois, passasse nas provas que lhe garantiram a atual profissão.

Subutilização da rede

Os sites e ferramentas mais utilizados pelos internautas brasileiros já permitem explorar alguns potenciais da Internet mencionados por Spyer e Saad. A pesquisadora, no entanto, faz um alerta: para ter um melhor aproveitamento, o usuário precisa direcionar com mais precisão a informação mirando conteúdos relacionados. A professora Saad também diz que o confinamento do usuário n Orkut e no MSN, muitas vezes, pode ser limitador. Phelipe, por exemplo, além das buscas que faz no Orkut, poderia consultar conteúdos disponíveis na Internet em sites específicos, em outras redes de relacionamento, em vídeotutoriais publicados no Youtube ou em aulas gratuitas na Internet. Há recursos educacionais e informativos disponíveis em todas as áreas e níveis de conhecimento. Blogs, cursos on line, fóruns de discussão, outras redes de relacionamento e sites de conteúdo gerado pelo usuário não podem ficar de lado.

A dificuldade do negócio

Lan houses com softwares legais são difíceis de manter

Foram necessários oito computadores e uma assinatura de Internet banda-larga para que Lourival Abreu arrumasse um jeito de sustentar a família trabalhando perto da casa onde mora, numa comunidade carente na zona oeste de São Paulo. “Sem precisar pegar ônibus”, comemora. O Windows é pirateado porque ele achou o original caro demais (custaria R$ 780 por máquina). Não se preocupou com as questões legais do empreendimento, “aqui não precisa dessas coisas, aqui nunca vem ninguém”, garante. De acordo com a tabela do SEBRAE, o custo para abrir uma lan house legalizada seria em torno de R$ 76.000,00. Lourival gastou R$ 14.000,00 em um modelo de negócio que não segue a tabela do SEBRAE, não é formal, mas corresponde a 83% das empresas desse tipo em todo o país.

Há um ano e três meses, Lourival, que tinha uma locadora de videogame, foi convencido pelos próprios clientes a investir em computadores e Internet. Cobrando R$ 1,50 por hora de uso da Internet e oferecendo serviços de digitalização e impressão, ele e o sócio conseguem faturar por mês, R$ 1.000,00 cada e têm um gasto mensal de R$1.200,00. Para atrair o público ele faz promoções: R$ 2,00 para uma hora e meia de Internet.

Estudos do SEBRAE apontam que o valor mínimo a ser cobrado numa lan house por hora de uso da Internet deve ser de R$ 2,50 para que o modelo seja sustentável. Com o aumento da concorrência, o valor cobrado acaba ficando abaixo disso. “Digamos que você cobre a hora a R$ 1,00 e tenha dez máquinas. Não há mágica que faça você faturar mais que R$ 10,00 por hora”, diz Mário Brandão, presidente da ABCID (Associação Brasileira de Centro de Inclusão Digital). Considerando quinze horas de trabalho diário, a receita máxima seria de R$150,00 por dia, ou R$4.500,00 por mês. Sem considerar uma taxa de ocupação (os computadores não ficam ocupados o tempo todo). Considerando essa taxa como sendo de 55%, a receita máxima cairia para R$2.500,00 a R$3.500,00 por mês. “Com essa receita bruta você não consegue sobreviver”, lamenta.

Com computadores a preços mais acessíveis, não é só a falta do equipamento que leva as pessoas a frequentarem a lan house. Portanto, o acesso à Internet não é mais o único serviço que o público espera encontrar. Impressão, digitalização, gravação de CDs e DVDs, escaneamento de documentos, emissão de segundas-vias de documentos ou qualquer auxílio em serviços públicos e gratuitos oferecidos pela Internet, são bons atrativos para o público e importantes geradores de receita para o negócio.

Originalmente conhecida como lugar para jogadores, a lan house passou a ser um espaço para internautas e hoje também pode servir até como loja de conveniência. Para Mauro Xavier, criador do Portal Criativa, que presta consultoria especializada para donos de lan houses, entrar no mercado não é o mais difícil. O desafio está em manter os clientes oferecendo serviços atrativos e adequar o modelo de negócio ao público que se deseja alcançar.


Distância das escolas

Além do pouco acesso a linhas de crédito, os donos de lan houses têm de enfrentar a falta de uma classificação específica para a categoria, a demora da concessão do alvará do juizado de menores e o alto custo dos softwares. Para Cláudio Vallim, consultor jurídico da orientação empresarial do SEBRAE, “as dificuldades induzem à informalidade”.

Ronaldo Lemos, Coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas, considera que a legislação não é positiva. “O primeiro passo seria criar uma categoria específica para a lan house, para que ela não seja mais considerada casa de jogos e diversão e, a partir daí, cabe às prefeituras criar uma política pública de legalização”, explica.

No Rio de Janeiro, as lan houses são obrigadas a manter uma distância de pelo menos um quilômetro de qualquer centro de ensino: escolas de balé, judô, informática, além das escolas tradicionais. Mário Brandão, presidente da ABCID, conta que procurou, através do Google Maps, uma área que estivesse de acordo com essa exigência. Encontrou dois espaços: um no vão central da ponte Rio-Niterói, na divisa entre os municípios, e outro na Floresta da Tijuca.

O deputado Otávio Leite (PSDB/RJ) afirma que, ao invés de combater as lans irregulares, é preciso atraí-las para uma organização inteligente e saudável. Ele criou o Projeto de Lei nº 4342, que reconhece a importância social dos Centros de Inclusão Digital e define o conceito de lan house, os serviços prestados e a classifica como “unidade produtiva da área da educação”.


Alternativa Linux

Quando abriu a primeira lan house de Santa Cruz do Rio Pardo, no interior paulista., Mauro Xavier não quis usar software pirateado e optou por instalar Linux em suas máquinas. Xavier foi ousado, mas abriu o negócio sem ter concorrência. Na cidade de 45 mil habitantes, não havia outra lan house. A tranquilidade de Mauro durou apenas um mês, quando surgiu a primeira concorrência com Windows, sistema que era mais familiar para o público. A saída foi tentar achar soluções que fizessem do Linux uma boa opção, mesmo que o sistema não tivesse maturidade para proporcionar ferramentas que substituíssem todos os serviços possíveis no Windows e que eram exigidos pelos clientes.

Depois de dois anos, com a experiência que adquiriu no próprio negócio, criou um portal para assessorar outros donos de lans que estavam na mesma situação. Vendeu a empresa e criou o Portal Criativa, que serve como vitrine de um negócio que promove migração, consultoria e suporte para lans que querem adotar o Linux. Hoje ele atende 180 donos de lan houses que pagam por consultoria e ainda tem outros 500 clientes que usam soluções gratuitas oferecidas pelo portal.