Do antro da perdição à cidadania digital, passando pelos delírios do consumo
- por Claudio Prado
O fenômeno das lan houses é potencialmente a quarta geração desta onda de Inclusão Digital, expressão, aliás, que já não faz sentido em 2009. Devemos falar em Cultura Digital.
Estamos na 3ª geração deste movimento. A 1ª onda foi “informática para os excluídos – senão você não vai ser ninguém na vida”. A 2ª onda foram os Telecentros da cidade de São Paulo, onde já não se falava de informática, mas sim de Internet com Banda Larga e Software Livre.
Os Telecentros abriram as portas do ciber espaço livre à milhares de pessoas das periferias… Cunharam uma geração de entusiasmo coletivo impressionante. Ali começou a ficar claro a vocação do brasileiro para a cultura colaborativa da Internet. Ali começou a ficar claro que em torno de um monte de computadores conectados, explodia um mundo de criatividade e as pessoas começavam a produzir e não somente a consumir. Nascia a 3ª geração, a Cultura Digital, que deriva da compreensão de que para o uso pleno das possibilidades interativas da Internet, é necessário existir um espaço multimídia e não só computadores. Descobrimos que o cidadão conectado deve ser capaz de se expressar não só através de textos e hipertextos, mas também através de imagem, áudio (música, sons, textos orais) e vídeo. Hoje, a conexão deixou de ser o maior desafio para dar lugar à expressão digital multimídia como demanda intrínseca da cidadania do século 21. A Cultura Digital dos Pontos de Cultura trabalha nesta perspectiva, gerando autonomia tecnológica e capacitação em multimídia livre como elementos essenciais às transformações das realidades locais e da liberação das energias criativas de indivíduos e coletivos sociais.
Por mil razões, o Telecentro como tal não faz mais sentido. É nas lan houses que acontecem a convivência e socialização digital da população brasileira. Cabe aqui um alerta vermelho! Há três movimentos distintos em direção ao “futuro” das lan houses:
- Um movimento reacionário que vê as lans como “antro da perdição”, numa confusão histórica de rejeição do novo.
- O movimento de legalizar as lan houses para explorar o comércio da conexão.
- O movimento que vê nas lan houses espaços potenciais de formaçãode cidadania cultural do século 21.
Estas três instâncias terão que ser levadas em consideração pelos órgãos regulatórios do governo, todas elas importantes para o bem e/ou para o mal. O grupo 1 é um perigo. Reacionários de todas as estirpes que vêem na Internet a encarnação de todos os males. Clássica reação ao novo. O grupo 2 são os neo-empresários da conexão, potenciais criadores de franquias e impérios que lidam com o digital como se o século 21 fosse uma continuação do analógico século 20, sem se questionar, me parece, que estão em curso, no Brasil e no mundo, inexoráveis políticas públicas de Banda Larga. E o grupo 3, no qual me incluo, enxerga um horizonte onde a Cultura Digital nas lan houses pode ser um atalho para criação de bolsões de alegria e de perspectivas de oxigênio para todos. As lan houses Culturais podem vir a ser os campinhos de várzea da Cultura e assim sendo se tornar a quarta geração de uma cultura digital revolucionária.








