June, 2009

Software livre: o caminho da autonomia.

Uma vez nas mãos de um único desenvolvedor de sistema operacional, todos teremos que seguir o seu ritmo e acatar as determinações econômicas e culturais por ele impostas

- por Sérgio Amadeu

Um pouco mais da metade da população brasileira teve acesso ao computador pelo menos uma vez. As lan houses, os pequenos postos de serviço, os cyber cafés tiveram uma importância decisiva para isso acontecer. Mas não podemos esquecer que a metade da população mais pobre ainda não tem acesso à rede mundial de computadores. É preciso avançar ainda mais no processo de inclusão da nossa sociedade na era da informação. Existem vários caminhos. Um deles é apostar na inclusão digital com autonomia tecnológica. Esse é o caminho do software livre e dos padrões abertos. Existe uma oportunidade gigantesca para o uso de softwares desenvolvidos colaborativamente, com o código-fonte acessível e sem custo de licenciamento. O software mais pirateado do planeta certamente é o sistema operacional Windows. Então, por que o seu código-fonte é fechado se isto não impede a sua cópia não-autorizada? Exatamente para tentar bloquear a liberdade de conhecimento sobre seus procedimentos e rotinas, para dificultar a interoperabilidade de aplicações, para atrasar a comunicação entre ele e um novo software de outra empresa pois a idéia das soluções proprietárias é tornar os usuários aprisionados às suas soluções. Uma vez “nas mãos” de um único desenvolvedor de sistema operacional, todos teremos que seguir o seu ritmo e acatar as determinações econômicas e culturais por ele impostas.

Assim, se uma lan house usa apenas software proprietário ela acaba ficando completamente dependente do monopólio de algoritmos. Até mesmo os formatos de documentos que utilizam só abrem em um único produto. Por exemplo, o “docx” não abre nem mesmo na versão anterior do mesmo produto. Por que tal absurdo? Para nos obrigar a seguir as determinações tecnológicas do monopólio de software. Para acompanhar o ritmo de obsolescência programada pelo fornecedor.

Quanto mais nosso país utilizar software livre mais estaremos livres para desenvolver soluções e escolher os melhores produtos, pois com o código-fonte dos softwares abertos, qualquer coletivo tecnicamente capacitado poderá alterá-lo, melhorá-lo e distribuir suas alterações. No mundo das redes, por exemplo, o software livre chamado Apache está presente em mais da metade dos servidores do planeta. O navegador Firefox e o Open Office ganham qualidade e crescem em número de usuários. A Nasa, a Bolsa de Valores de Nova York, o Yahoo e o Google usam software livre. A Wikipedia, maior enciclopédia do mundo, além de seguir o modelo de construção colaborativa do software livre, roda sobre Gnu/Linux e Apache. O Wordpress, uma das melhores ferramentas de blogs, é um software livre e que pode ser muito bem utilizado pelas lan houses e seus usuários.

As lan houses podem começar a usar soluções livres gradativamente. Em vez de desperdiçar dinheiro com licenças podem usar Gimp, Office.br, Orca Linux, TV Miro, Firefox, Brasero, Amarok, entre outros dos mais de 150 mil softwares de código aberto desenvolvidos pelas comunidades livres no planeta. Esta ação, além de baratear custos e evitar as soluções “piratas”, permitirá que milhares de jovens talentosos,por conhecer o código-fonte dos softwares, passem a ser desenvolvedores. As lan houses e o país economizam e ganham autonomia e conhecimento tecnológico.

 

Internet no Brasil

Apenas entre 2006 e 2007, o número de usuários da Internet brasileira aumentou em quase 10 milhões.

Takeshi Gomes Dom tem 13 anos. Como todos de sua idade, aproveita as férias para brincar com os amigos. Ele gosta de jogar videogame. Takeshi está na 5ª série numa escola da rede pública de São Paulo. No período de aulas, Takeshi usa o computador regularmente.

Duas vezes por semana ele tem lições de informática. Na escola, recebe da professora um texto e, nos 40 minutos de aula, treina digitação passando o conteúdo para o computador. Internet, ele só usa de vez em quando. Menos de uma vez por mês, Takeshi vai a uma lan house perto da sua casa, no bairro da Liberdade, paga um real e, por meia hora, disputa partidas eletrônicas de futebol ou de luta. Como Takeshi começou a usar a Internet em 2007, ele se transformou em número da estatística para o Comitê Gestor da Internet, o CGI.

O menino passou a fazer parte dos 45 milhões de brasileiros usuários da rede naquele ano, um aumento de quase 10 milhões em relação ao ano de 2006. Para o levantamento do CGI, são usuários todos que acessaram a web pelo menos uma vez nos três meses que antecederam o momento da pesquisa. E precisa ter mais de 10 anos de idade. Assim, Takeshi faz parte desses milhões que, de 2006 para 2007, fizeram subir de 28% para 34% o percentual da população brasileira usuária de Internet. Esse é o resultado da Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação no Brasil – 2007, do CGI. A mesma linha de aumento constante também foi apontada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, o Ibope. No terceiro trimestre do ano passado, 43,1 milhões de brasileiros acessaram a Internet, seja na sua casa, no trabalho, nas escolas, nas bibliotecas, nos telecentros ou nas lan houses.

No início de 2002, um levantamentodo Ibope/NetRatings apontava 19,6 milhões de usuários. Em seis anos, portanto, o universo mais do que dobrou. Esse aumento, na verdade, pode ser bem maior porque Takeshi, por exemplo, não fez parte desse levantamento já que o Ibope apenas considera usuário da Internet quem tem mais de 16 anos. Mesmo com essa diferença de metodologia nas pesquisas, uma coisa é certa: a Internet no Brasil se transformou num fenômeno. “Vamos esquecer os números e identificar o contexto”, sugere o sociólogo Marcelo Coutinho, diretor-executivo do Ibope Inteligência.

Razões

O aumento do número de usuários é também consequência de alguns aspectos econômicos. Para Coutinho, a queda de preços dos computadores, o dólar baixo nos últimos anos, o fim da cobrança de impostos – PIS e Cofins – sobre as máquinas e a facilidade de financiamento nas lojas populares garantiram o crescimento nas vendas de computadores. O sociólogo aponta ainda a importância de outros fatores nesse fenômeno: “A internet é, hoje, um meio que representa a sociabilização. Sem a internet, é impossível a inserção na modernidade, é impossível estudar, trabalhar ou viver situações formais”. Também nesse contexto, Coutinho associa o aumento do uso da internet no Brasil ao fato do lazer no meio urbano normalmente estar associado ao gasto de dinheiro.

Atividades como ir até o shopping, cinema e restaurante, aliadas ao problema da violência nas cidades – em que sair de casa significa se arriscar – transformam a internet numa forma de lazer a um custo muito baixo”. Há duas décadas, o telefone público era a forma relativamente barata de os brasileiros de menor poder aquisitivo se relacionarem, recebendo e fazendo ligações pelos “orelhões”. Hoje, quem assume essa função é a rede mundial de computadores.  “A Internet é o jeito privado que os brasileiros deram para o telefone público”, explica Fernando de Souza Meirelles, professor e coordenador do Centro de Pesquisa de Tecnologia da Fundação  Getúlio Vargas (FGV).

Entraves

O professor Meirelles acredita que nos próximos anos a tendência é de aumento no número de computadores e de usuários da internet no Brasil, com a crise internacional, faz uma ressalva “o único entrave para a expansão da Internet no Brasil é o ambiente econômico”. Ele coordenou uma pesquisa da FGV que estima que em 2012 o Brasil chegará a 100 milhões de computadores, contra os 50 milhões existentes em maio do ano passado. Já o sociólogo Sérgio Amadeu, professor da pós-graduação da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, diz que existe um gargalo estrutural que não permite o pleno crescimento no número de usuários da Internet. Fernando de Souza Meirelles é autor, entre outros, do livro Exclusão Digital: a miséria na era da informação. “O governo deveria colocar a educação digital como um problema”, reflete o professor. Segundo Sérgio Amadeu, no Brasil existe a necessidade de se articular para a internet uma política que dê diretrizes e defina o papel de cada setor envolvido nesse processo de inclusão digital.

Enquanto essa política pública não se transforma numa ação efetiva e consequente, as lan houses, ou centros públicos de acesso pago, cumprem esse papel. Essas casas garantem a navegação para a metade dos brasileiros que acessam a Internet. A pesquisa do CGI mostra que, entre 2005 e 2007, o número de usuários de lan houses, cyber cafés e espaços similares passou de 18% para 49%.

Pesquisa Cultura Data: Novo papel para as lan houses

Os videogames ainda não foram destronados nas lan houses paulistanas, mas perdem cada vez mais espaço entre as preferências de seus jovens frequentadores de todas as classes sociais, que agora buscam também comunicação, informação, pesquisa e relacionamento.

Esta é a principal conclusão de um estudo coordenado pelo Cultura Data, setor de pesquisa da Fundação Padre Anchieta, que ouviu 349 usuários e 27 donos de lojas de São Paulo, de bairros com realidades tão distantes quanto Heliópolis e Jardins.

Outra descoberta: mesmo quem tem computador em casa usa este serviço com frequência, quando está na rua. A maioria é do sexo masculino, tem até 24 anos, pertence às classes C e D e, além de trocar mensagens, costuma assistir vídeos, filmes e ouvir rádios. Os jovens visitam as lojas pelo menos uma vez por semana e ficam conectados por mais de uma hora.

A pesquisa indica ainda que as lan houses também facilitam as pesquisas escolares, as consultas sobre cursos de qualificação e a busca por oportunidades de emprego. Ou seja: os usuários são internautas também em busca de conteúdo qualificado.

Uma pesquisa ampla

Conhecer o comportamento dos usuários de lan houses foi o desafio dos pesquisadores do Cultura Data, na consulta realizada de 10 a 17 de dezembro de 2008.

A amostra colheu dados em lojas situadas em todas as regiões da cidade de São Paulo e utilizou questionário com perguntas abertas e fechadas. Além dos usuários, procurou conhecer algumas peculiaridades das lojas, do ponto de vista de seus proprietários ou responsáveis presentes no momento da entrevista.

Um número significativo, 17% dos usuários consultados, tem nas lan houses sua única forma de acesso à Internet. Para 40%, o acesso se dá na casa de amigos, enquanto 17% entram na rede na própria casa, 15% no trabalho e 12% na escola. A pesquisa mostra que navegar na Internet é um hábito cada vez mais frequente na vida dos paulistanos. Mais da metade dos pesquisados (55%) incorporou o custo do acesso aos seus gastos mensais e cerca de um em cada três (36%) acha barato o valor pago pelo uso dos equipamentos, que varia entre R$1,50 e R$ 2,00 a hora.

O estudo demonstra que as casas de jogos on-line estão se transformando em espaços públicos de inclusão digital, revelando uma tendência crescente por busca de conteúdos educativos e informativos.

Essa transformação insere o usuário num universo de relacionamentos, que ampliam suas oportunidades de crescimento pessoal e cultural. Para os proprietários das lojas, representa uma oportunidade para reconfiguração do negócio.